Este livro, a propósito do Bicentenário das relações diplomáticas entre o Brasil e a Santa Sé, vem à luz graças ao apoio da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, por meio da atuação dinâmica do Padre Omar Raposo, Reitor do Santuário do Cristo Redentor.
Ao celebrarmos o bicentenário das relações diplomáticas entre o Brasil e a Santa Sé, somos convidados a revisitar uma história marcada por um diálogo fecundo entre Igreja e sociedade. O título deste volume — De Leão a Leão — exprime de maneira singular a amplitude desse caminho, que se estende do pontificado de Leão XII, sob o qual foram estabelecidos oficialmente, em 1826, os vínculos diplomáticos entre o Império do Brasil e a Santa Sé, até o presente pontificado do Papa Leão XIV, cuja sabedoria pastoral continua a inspirar a humanidade a “desenhar novos mapas de esperança”, na expressão de sua recente Carta Apostólica.
Duzentos anos de relações ininterruptas entre o Estado brasileiro e a Sé Apostólica representam muito mais do que um percurso diplomático. São, sobretudo, a história de uma presença espiritual que ajudou a
plasmar o imaginário e a alma do povo brasileiro.
Desde os primeiros missionários que anunciaram o Evangelho em nossas terras, até as inúmeras iniciativas educacionais, caritativas e culturais que moldaram a identidade nacional, a Igreja sempre caminhou ao lado do Brasil. O diálogo institucional entre o país e a Santa Sé foi, portanto, a expressão madura de uma comunhão que já existia na vida concreta de nossa gente.
As relações entre o Brasil e a Santa Sé sempre se pautaram por um profundo respeito mútuo. Desde o Império, com seus debates sobre o Padroado, até a República, que redefiniu a laicidade do Estado sem
romper com a dimensão espiritual do povo, essa relação foi se refinando, amadurecendo, consolidando–se como um espaço de cooperação construtiva.
Em cada período histórico, a Igreja e o Estado brasileiro encontraram modos novos de dialogar, preservando a autonomia de cada esfera, mas reconhecendo a importância de trabalharem juntos na promoção da
dignidade humana.
Não é possível compreender o percurso do Brasil sem reconhecer a contribuição do pensamento social cristão, da ação educativa das congregações religiosas, da presença constante das dioceses e paróquias
em todos os recantos do país, e do testemunho silencioso de milhões de fiéis que, movidos pela fé, edificaram comunidades, escolas, hospitais e obras de caridade. Essa presença discreta e constante foi, ao
longo de dois séculos, uma semente de esperança que enriqueceu a vida nacional e deu sentido espiritual à
história do Brasil.
Um marco recente e expressivo desse itinerário é o Acordo entre o Brasil e a Santa Sé, assinado em 13 de novembro de 2008 e promulgado em 7 de outubro de 2010. Esse tratado, fruto de longa e respeitosa interlocução, consagra juridicamente aquilo que a prática já confirmava: a importância da contribuição da
Igreja Católica à formação moral, cultural e social do povo brasileiro. Mais do que um instrumento jurídico, o Acordo representa um compromisso com a liberdade religiosa, com a promoção da pessoa humana e com a colaboração em favor do desenvolvimento integral da sociedade.
Celebrar o bicentenário das relações Brasil–Santa Sé é também um convite a olhar para o futuro.
Num mundo cada vez mais fragmentado, em que as relações humanas e internacionais são frequentemente marcadas por tensões e desconfianças, o testemunho dessa história é um sinal de esperança. O vínculo que une o Brasil à Sé de Pedro lembra-nos que o diálogo, a escuta e a cooperação são caminhos seguros para a paz. A fé cristã, que inspira tantos brasileiros, continua a oferecer ao país e ao mundo o horizonte de uma fraternidade universal, conforme o desejo de Cristo: “Que todos sejam um, e o mundo creia” (Jo 17,21).
Que este livro inspire os leitores a contemplar o que o Espírito Santo realizou no Brasil por meio dessa aliança de fé, cultura, diplomacia e serviço. Que ele suscite também um renovado compromisso de todos, Igreja, Estado e sociedade, com a promoção da paz, da justiça e da fraternidade. Com o coração agradecido, unimos nossa voz à de tantos que, ao longo desses duzentos anos, trabalharam para que a presença da Igreja em nossa pátria fosse sempre sinal de comunhão, esperança e amor. Que a Virgem Aparecida, Padroeira do Brasil, continue a interceder por nossa nação e por aqueles que, na diplomacia e na fé, constroem pontes para o bem comum.
– Apresentação por Orani João Cardeal Tempesta, O.Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro


